
Um estudo recente sugere que cerca de 16% dos homens e 22% das mulheres no Reino Unido são sexualmente inativos. Embora seja difícil obter um retrato totalmente preciso da vida íntima das pessoas, outra pesquisa indica que mais de um quarto dos relacionamentos podem ser classificados como “sem sexo”. Esse fenômeno levanta uma série de questões: quais são os efeitos para o corpo e a mente quando alguém deixa de ter relações sexuais regularmente? A abstinência sexual prejudica a saúde? E quais estratégias podem ajudar a melhorar a vida sexual e a intimidade do casal?
O que é abstinência sexual?
A abstinência sexual é a escolha de se abster de qualquer forma de atividade sexual. Essa decisão pode ter motivos pessoais, culturais, religiosos ou relacionados ao próprio relacionamento. De acordo com o Dr. Ali Novitsky, obstetra e fundador do programa Exercising Intimacy, que incentiva uma conexão mais profunda entre parceiros por meio de exercícios e sexo, “abster-se de atividade sexual pode ser uma escolha deliberada, seja por crenças pessoais ou por situações dentro do relacionamento”.
Um levantamento realizado pelo The Social Organization of Sexuality, com 3.432 pessoas nos Estados Unidos, define um “casamento sem sexo” como aquele em que o casal não realiza atividade sexual ou possui encontros sexuais mínimos. Esse conceito é importante para entender que abstinência e diminuição da frequência sexual podem ocorrer mesmo em relacionamentos duradouros e saudáveis.
A ausência de relações sexuais pode trazer impactos físicos e emocionais. Entre os efeitos mais citados estão mudanças hormonais, menor longevidade, dor vaginal e alterações de humor.
Segundo o Dr. Novitsky, “uma das consequências imediatas da abstinência sexual pode ser a alteração nos níveis hormonais do indivíduo. A atividade sexual regular aumenta a produção de hormônios como ocitocina e endorfinas, que estão associados à sensação de felicidade e redução do estresse. Portanto, a ausência de sexo pode reduzir esses hormônios, impactando o bem-estar emocional”.
Além disso, não ter relações sexuais com frequência também pode afetar a longevidade. Um estudo publicado no European Journal of Preventive Cardiology constatou que ter relações sexuais pelo menos 52 vezes por ano estava associado a uma redução de 10% na mortalidade por doenças cardíacas e 44% na mortalidade por causas não cardíacas.
Para mulheres na menopausa ou pós-menopausa, a falta de sexo pode agravar sintomas da atrofia vaginal, uma condição em que a vagina se torna mais seca e fina devido à diminuição dos níveis de estrogênio. Essa situação pode gerar coceira, queimação, dor durante o sexo, corrimento incomum e pequenos sangramentos. Pesquisas indicam que mulheres que mantêm relações sexuais regulares apresentam sintomas menos severos de atrofia vaginal em comparação com aquelas que não têm relações.
Benefícios de manter relações sexuais regulares
Manter relações sexuais com regularidade pode trazer diversas vantagens para a saúde física, mental e emocional do casal. Entre os principais benefícios estão:
- Melhora da saúde mental
Estudos sugerem que o sexo frequente pode reduzir os níveis de ansiedade e ajudar no tratamento da depressão, promovendo sensação de bem-estar. - Saúde da próstata
Para os homens, a saúde da próstata se beneficia de ejaculações regulares. Uma pesquisa de 2016 indicou que homens que ejaculavam pelo menos 21 vezes por mês tinham menor risco de câncer de próstata do que aqueles que ejaculavam de quatro a sete vezes mensais. - Prevenção da incontinência urinária
Para mulheres, orgasmos frequentes fortalecem os músculos do assoalho pélvico, ajudando a evitar problemas de incontinência na vida adulta. - Fortalecimento do sistema imunológico
A atividade sexual regular também é benéfica para o sistema imunológico. Um estudo com universitários que mantinham relações uma ou duas vezes por semana mostrou níveis mais elevados de imunoglobulina A, um anticorpo que reforça a imunidade. - Maior satisfação no relacionamento
Casais que mantêm relações sexuais com frequência tendem a ter relacionamentos mais duradouros e satisfatórios. Pesquisas indicam que sexo frequente está ligado a melhor qualidade conjugal e menor tensão na relação, principalmente entre os homens.
Por que casais deixam de ter relações sexuais?
Existem diversas razões pelas quais os casais podem reduzir ou interromper a atividade sexual. Uma pesquisa com 2.000 adultos apontou que 45% das pessoas citaram o cansaço como motivo mais comum, seguido de “vida estressante” (29%), diminuição da libido ao longo do tempo (28%), diferenças de desejo sexual (20%) e baixa intimidade (19%). Outras razões incluem questões de trabalho, sexo não ser prioridade, discussões no relacionamento, filhos e inseguranças pessoais.
Abaixo, o resumo das 10 principais razões citadas:
- Sentir-se muito cansado – 45%
- Vida muito estressante – 29%
- Diferenças no desejo sexual – 28%
- Libido mudou ao longo do tempo – 20%
- Baixa ou nenhuma intimidade – 19%
- Trabalho estressante – 19%
- Sexo não é prioridade – 19%
- Discussões no relacionamento – 19%
- Ter filhos – 18%
- Inseguranças pessoais – 16%
O Dr. Novitsky explica que fatores como pressões da vida diária, condições físicas, idade, alterações hormonais e fatores emocionais podem reduzir o desejo sexual:
- Pressões do dia a dia: demandas do trabalho, filhos e outras responsabilidades podem priorizar outras atividades em detrimento da intimidade, reduzindo a libido.
- Condições físicas: problemas de saúde, desequilíbrios hormonais, menopausa ou doenças crônicas podem impactar a função sexual ou o desejo. Doenças cardíacas, pressão alta, diabetes e câncer estão associadas à redução da capacidade sexual.
- Idade: o envelhecimento também influencia a percepção e o interesse por sexo. Um estudo com 1.170 adultos de 53 anos em média mostrou que aqueles que se sentiam mais velhos relatavam diminuição na qualidade sexual, enquanto os que se sentiam mais jovens mantinham mais satisfação sexual.
- Alterações hormonais: para mulheres, condições como síndrome dos ovários policísticos ou menopausa podem reduzir a libido. Um levantamento indicou que quase um terço das mulheres acima de 60 anos perdeu o desejo sexual após a menopausa.
- Fatores emocionais: depressão, ansiedade ou conflitos não resolvidos no relacionamento podem levar à diminuição ou cessação da atividade sexual.
Dr. Novitsky ressalta que a diminuição do sexo nem sempre indica problema: “Pode ser apenas uma transição para uma nova fase do relacionamento. Porém, se a falta de sexo causar desconforto, é importante abordar o tema de forma aberta e, se necessário, buscar ajuda profissional.”
Como aumentar o desejo sexual
Variações na libido são normais e o que é considerado baixo desejo sexual varia de pessoa para pessoa. Novitsky recomenda uma abordagem que engloba saúde física, bem-estar mental e dinâmica de relacionamento:
- Priorize o autocuidado
Exercícios físicos regulares, alimentação balanceada e sono adequado ajudam a aumentar o desejo sexual. Estudos indicam que dormir mais na noite anterior aumenta a libido no dia seguinte. A atividade física melhora a circulação sanguínea, humor e imagem corporal, fatores que contribuem para uma libido saudável. - Gerencie o estresse
Altos níveis de estresse afetam negativamente a libido. Técnicas de relaxamento, como yoga, meditação e mindfulness, podem reduzir ansiedade e melhorar o desejo sexual. - Terapia comportamental
Terapias como a cognitivo-comportamental podem ser eficazes na melhoria da função sexual. Um estudo com 198 mulheres mostrou que a terapia contribuiu positivamente para a vida sexual. Em homens, pode ajudar no tratamento da disfunção erétil, muitas vezes em combinação com medicamentos. - Procure ajuda profissional
Terapeutas ou conselheiros podem orientar sobre como lidar com questões emocionais que afetam a libido. Segundo Ammanda Major, especialista em relacionamentos e sexóloga, “o sexo cria uma sensação de conexão e conforto. Mesmo que o desejo esteja diminuído, é possível buscar intimidade e afeto, começando com uma conversa aberta sobre sentimentos.”
Benefícios da abstinência sexual
Apesar de todos os benefícios do sexo regular, não ter relações sexuais não implica necessariamente problemas de saúde. Segundo Novitsky, a abstinência pode trazer benefícios psicológicos: “Pode ser uma oportunidade de se reconectar consigo mesmo, sem a pressão de ser sexual. Para algumas pessoas, escolher a abstinência é um alívio”.
Estudos sugerem que pessoas abstinentes não são menos felizes do que aquelas sexualmente ativas, e que a escolha pode promover reflexão, autoconhecimento e redução de estresse emocional.
O que fazer se o parceiro não deseja sexo
Desejos sexuais descompassados são comuns. Pesquisas indicam que cerca de 80% dos casais vivenciam situações em que um deseja sexo e o outro não. A recomendação é abordar o tema sem culpar o parceiro. Major sugere iniciar a conversa com cuidado, usando expressões como: “Percebi que… tenho sentido… e gostaria de compartilhar meus sentimentos. O que você pensa sobre isso?”.
Dr. Novitsky acrescenta: “É importante criar experiências compartilhadas, expressar afeto e compreender as necessidades do parceiro. Todas as pessoas e relacionamentos passam por variações de desejo sexual. A paciência e a comunicação são fundamentais para navegar essas mudanças.”
O sexo é uma parte importante, mas não exclusiva, do relacionamento. Seus benefícios vão da saúde física à satisfação emocional e fortalecimento do vínculo entre parceiros. Entretanto, a ausência de sexo não necessariamente significa um problema de saúde ou de relacionamento. Entender os motivos, comunicar-se aberta e honestamente e buscar apoio profissional quando necessário são passos essenciais para manter a intimidade e o bem-estar do casal.
A escolha de ser sexualmente ativo ou abstinente é individual e pode variar ao longo da vida. A chave está em compreender a si mesmo, respeitar o parceiro e cultivar estratégias que promovam saúde física, mental e emocional, independentemente da frequência sexual.







