O governo brasileiro criticou duramente a decisão da União Europeia de suspender as importações de carne e outros produtos de origem animal do país e advertiu que aplicará represálias se não houver uma solução rápida para o conflito. A medida, que começou a valer nesta quinta-feira (3), atinge carne bovina, carne de aves, pescado, ovos e mel.

Os ministérios das Relações Exteriores e da Agricultura expressaram “profunda preocupação” e afirmaram que já entregaram garantias técnicas para demonstrar que a exigência sanitária da UE estava atendida. O governo brasileiro deixou claro que, se as conversas com o bloco não levarem a uma solução imediata, se reserva o direito de recorrer a instrumentos de reciprocidade previstos na legislação brasileira. Também avalia acionar os mecanismos de solução de controvérsias do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, além dos procedimentos da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O núcleo da disputa

A suspensão foi motivada pela avaliação da UE de que o Brasil não apresentou provas suficientes sobre o cumprimento das normas comunitárias para o uso de antimicrobianos ao longo de toda a cadeia de produção. O governo brasileiro, no entanto, insiste que já implementou as medidas necessárias e que a documentação pertinente já está em poder das autoridades europeias.

A Comissão Europeia afirmou que as importações do Brasil poderão ser retomadas quando o país comprovar que se ajusta plenamente às regras do bloco.

Peso do mercado europeu

Em 2025, as exportações dos produtos atingidos pela medida somaram US$ 2,026 bilhões, sendo US$ 1,064 bilhão em carne bovina e US$ 781,4 milhões em carne de aves. A magnitude desses valores explica a dureza da resposta do Brasil.

O mercado europeu tem peso singular para a carne bovina brasileira pelo tipo de cortes que adquire e pelo valor agregado. Em 2025, o bloco recebeu mais de 92 mil toneladas de produtos bovinos brasileiros, tornando o destino altamente relevante para os frigoríficos do país.

Momento sensível e auditoria

A suspensão europeia ocorre em um momento especialmente delicado para os exportadores brasileiros, pois coincidiu com uma desaceleração dos embarques de carne bovina para a China, o principal comprador externo do setor. As empresas brasileiras estão perto de esgotar a cota de importação fixada por Pequim para este ano, o que encareceu o ingresso de novas operações.

Como parte do processo de negociação, o Brasil aceitou uma auditoria europeia em suas cadeias de carne de aves e mel, com conclusão prevista para o dia 4 de setembro. O governo confia que o diálogo técnico permita uma saída “rápida, objetiva, transparente e fundamentada em critérios científicos”, livre de pressões protecionistas.