Manaus – O número de focos de calor no Amazonas aumentou 416,9% entre o primeiro turno das eleições presidenciais, realizado em 4 de outubro, e o dia 16 deste mês. O total passou de 354 para 1.830 registros, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Diante do avanço das queimadas, órgãos ambientais e forças de segurança investigam a possibilidade de incêndios provocados deliberadamente, inclusive com eventual motivação política.

O superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Amazonas, Joel Araújo, confirmou, em entrevista à imprensa local, que há uma investigação em andamento para apurar as circunstâncias dos incêndios e identificar possíveis responsáveis.

A apuração envolve o Ibama, a Polícia Federal (PF), a Polícia Civil do Amazonas e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). Entre as hipóteses investigadas está a possibilidade de que parte das queimadas tenha sido provocada de forma intencional, com motivações relacionadas ao cenário político após o primeiro turno.

Aumento expressivo após a votação

O salto nos registros ocorreu depois da votação de 4 de outubro, quando Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa a reeleição. Os dois candidatos estão no segundo turno, marcado para 25 de outubro.

Entre os dias 4 e 16 de outubro, o Amazonas acumulou 1.476 novos focos de calor. O dia 10 foi o mais crítico do período analisado, com 494 registros em apenas 24 horas.

O aumento também foi observado em outras áreas da Amazônia Legal. Dados do Inpe apontaram 3.695 focos de calor na região na semana posterior ao primeiro turno, quase o dobro dos 1.854 registrados na semana anterior.

Apesar da coincidência temporal entre o avanço das queimadas e o resultado eleitoral, a relação entre os incêndios e uma possível motivação política ainda precisa ser comprovada pelas investigações.

Governo investiga possíveis ações criminosas

A suspeita de incêndios provocados intencionalmente também foi levantada pelo ministro interino do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco. Durante sobrevoos em áreas atingidas, equipes identificaram focos de fogo em regiões de floresta preservada, inclusive com distribuição que chamou a atenção dos técnicos.

A localização dos incêndios reforçou a necessidade de investigar se há ações coordenadas para destruir a vegetação e facilitar a ocupação irregular de terras públicas.

No dia 14 de outubro, o governo federal informou que a força-tarefa responsável pelo combate aos incêndios já havia aberto 120 Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs) para apurar possíveis condutas criminosas relacionadas ao fogo no Amazonas.

As autoridades também investigam se existe uma organização por trás da sequência de incêndios. Até o momento, porém, não há comprovação de que todos os focos tenham a mesma origem ou estejam ligados a interesses eleitorais.

Fumaça agrava situação em Manaus

Enquanto as investigações avançam, a fumaça das queimadas continua provocando preocupação em Manaus e em municípios do interior. A poluição atmosférica tem prejudicado a qualidade do ar e levado à suspensão de atividades, incluindo aulas presenciais em períodos de maior concentração de fumaça.

O cenário é agravado pelas condições climáticas, como temperaturas elevadas, estiagem e efeitos associados ao fenômeno El Niño, que favorecem a propagação das chamas. Especialistas ressaltam, contudo, que as condições ambientais não explicam, isoladamente, a origem de cada incêndio, já que o início do fogo está frequentemente relacionado à ação humana.