
Crime prescreve após duas décadas sem solução
O roubo de cinco obras de arte de valor inestimável, incluindo peças de Claude Monet, Pablo Picasso e Salvador Dalí, do Museu da Chácara do Céu, no Rio de Janeiro, prescreve oficialmente nesta semana. O crime, ocorrido em 24 de fevereiro de 2006, durante o Carnaval, é considerado um dos maiores do Brasil e figurou entre os dez maiores do mundo segundo o FBI. Após 20 anos, os responsáveis não poderão mais ser punidos.
Investigações e suspeitos
Ao longo das duas décadas, três nomes surgiram como principais suspeitos. Paulo Gessé, proprietário de uma kombi branca utilizada no transporte de uma das obras, foi investigado e teve sua residência revistada, mas a Justiça considerou que não havia provas concretas para torná-lo réu. Denúncias anônimas também apontaram para dois franceses: Michel Cohen, negociador de pinturas com histórico de fraudes nos EUA, e Patrice Rouge, artesão radicado no Brasil. Rouge, em entrevista exclusiva à Agência Brasil, negou veementemente qualquer envolvimento no roubo, classificando a acusação como absurda e prejudicial à sua reputação.
O caso Michel Cohen
Michel Cohen foi preso no Rio de Janeiro em maio de 2003, antes do roubo, mas conseguiu fugir em dezembro do mesmo ano. Suspeita-se de seu envolvimento no caso da Chácara do Céu. Ele permaneceu foragido por dezesseis anos, reaparecendo publicamente em um documentário da BBC em 2019. Informações recentes indicam que ele continua escondido da Interpol.
A perspectiva de Patrice Rouge
Patrice Rouge, que vive atualmente na França, relatou à Agência Brasil que ouviu sobre o roubo pela primeira vez através de seu advogado. Ele nega participação e alega que estava na França na época do crime. Rouge, que vive no Brasil desde 1974 e trabalhou com restauração de peças antigas, possuía uma casa em Santa Tereza, próxima ao museu, o que aumentou as suspeitas. Ele afirma ter retornado definitivamente para a França em 2005, mas visita o Rio com frequência para ver a filha e o neto.
“A Arte do Descaso”: um retrato da negligência
Em 2011, a jornalista Cristina Tardáguila iniciou uma investigação que resultou no livro “A Arte do Descaso”, publicado em 2015. A obra aponta para um generalizado desinteresse institucional em solucionar o crime, criticando a diretoria do museu, o governo federal, o Ministério da Cultura, a polícia e a mídia. Tardáguila descreve uma série de erros e negligências, como a demora da primeira patrulha policial em chegar ao museu e a falta de preservação de provas no local. A comunicação da Polícia Federal sobre o roubo foi falha, sem detalhes cruciais das obras.
Falhas na investigação e o desaparecimento do inquérito
A estrutura da Polícia Federal na época, que concentrava crimes ambientais e contra o patrimônio histórico no mesmo departamento, é criticada. A ausência de um banco de dados nacional sobre obras roubadas, que só seria criado anos depois, também contribuiu para as dificuldades. Um dos episódios mais emblemáticos de “descaso” foi o desaparecimento do inquérito policial, encontrado apenas em 2015. O processo criminal foi arquivado provisoriamente por falta de autoria definida.
Reforço na segurança do museu
Desde 2007, o Museu da Chácara do Céu fecha em dias de carnaval e desfiles de blocos. Em 2006, apenas três seguranças estavam de plantão, e as câmeras de vigilância gravavam em fitas cassete, levadas pelos criminosos. Atualmente, o museu conta com mais seguranças, monitoramento por câmeras moderno com gravação 24/7, e treinamento da equipe. A diretoria do museu mantém contato estreito com a polícia e a Guarda Municipal.
As obras roubadas
As cinco obras roubadas eram “Marine” (Marinha), de Claude Monet; “Le Jardin du Luxembourg” (O jardim de Luxemburgo), de Henri Matisse; “La Danse” (A dança), de Pablo Picasso; “Homme d’une Complexion Malsaine Écoutant le Bruit de la Mer sur les Deux Balcons” (Homem de aparência doentia escutando o barulho do mar sobre duas varandas), de Salvador Dalí; e o livro de gravuras “Toros” (Touros), de Picasso.
Perda cultural e a necessidade de políticas públicas
Especialistas como Helder Oliveira, perito em artes visuais, lamentam a perda cultural irreparável para a sociedade. Ele ressalta a importância de políticas públicas que valorizem o patrimônio cultural e de uma polícia especializada no tema. A jornalista Cristina Tardáguila critica a forma como roubos de arte são tratados com desdém pelas autoridades, muitas vezes por não envolverem homicídios ou por serem associados à elite.
O crime nas telonas e a esperança de retorno
Um longa-metragem ficcional baseado no livro “A Arte do Descaso” está em fase de captação de financiamento, com expectativa de produção ainda este ano. Para o Museu da Chácara do Céu, a prescrição do crime não encerra a esperança de que as obras um dia sejam encontradas e devolvidas. As peças continuam a fazer parte da história e do legado de Raymundo Ottoni de Castro Maya.
Com informações da Agência Brasil







