
A Operação “Erga Omnes”, deflagrada pela Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), sacudiu o centro do poder político na manhã desta sexta-feira (20) em Manaus. A ação, que mira uma organização criminosa envolvida em tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, chegou ao gabinete do Prefeito David Almeida (Avante) e resultou na prisão de agentes públicos estratégicos, expondo a suposta infiltração do crime organizado na administração municipal.
Entre os alvos principais está Anabela Cardoso Freitas, Ex-Chefe de Gabinete de David Almeida durante seu período na Assembleia Legislativa (ALEAM) e, até então, servidora da Comissão Municipal de Licitação (CML). Ela é apontada pelas investigações como integrante do “núcleo político” de uma facção criminosa que atua no estado.
Além dela, foram detidos Izaldir, motorista da desembargadora Nélia Caminha Jorge, e outros três suspeitos identificados como Alan Kleber Bezerra Lima, Andreia Almeida e Adriana Almeida Lima.
INVASÃO AO GABINETE E PRISÕES
A operação, cujo nome em latim significa “contra todos”, cumpriu vinte e quatro mandados de prisão e dezenas de buscas na capital amazonense e em outros seis estados, incluindo São Paulo e Maranhão. A presença de policiais civis no gabinete do prefeito e em setores sensíveis como a comissão de licitação sinaliza que a investigação foca na utilização da estrutura pública para o favorecimento de atividades ilícitas.
Segundo as autoridades, o grupo utilizava cargos públicos para facilitar a logística do tráfico e ocultar a origem de recursos provenientes do crime. Materiais como documentos e dispositivos eletrônicos foram apreendidos e devem passar por perícia para identificar o alcance da rede de corrupção dentro da prefeitura.
O SOMBRA DO COMANDO VERMELHO
A Operação “Erga Omnes” não é o primeiro episódio a ligar a gestão de David Almeida ao crime organizado. O Prefeito já foi alvo de graves acusações de manter alianças com o Comando Vermelho (CV) em Manaus. Relatórios de inteligência e dossiês entregues a autoridades federais já apontavam para uma suposta “troca de votos” e apoio logístico da facção em redutos eleitorais controlados pelo tráfico.
Em 2022, a Revista VEJA publicou uma matéria detalhando a existência de um dossiê do serviço de inteligência que ligava autoridades do Amazonas, incluindo o prefeito, ao crime organizado. Na época, o parlamentar negou as acusações e tentou censurar a publicação judicialmente, mas perdeu o processo. A prisão de sua ex-chefe de gabinete nesta nova operação reforça as suspeitas de que a proximidade com o “núcleo político” da facção pode ser mais profunda do que o admitido oficialmente.
LISTA DE PRESOS DURANTE A OPERAÇÃO NO AMAZONAS
Izaldir Moreno Barros – servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas. A polícia aponta que ele recebia pagamentos para fornecer informações sigilosas de processos em segredo de Justiça, o que teria beneficiado o grupo criminoso.
Adriana Almeida Lima – ex-secretária de gabinete de liderança na Assembleia Legislativa do Amazonas. Relatórios de inteligência financeira indicam transações milionárias ligadas ao esquema;
Anabela Cardoso Freitas – investigadora da Polícia Civil que integra a Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus e foi chefe de gabinete do prefeito David Almeida. A investigação diz que ela teria movimentado cerca de R$ 1,5 milhão em favor da facção por meio de empresas de fachada;
Alcir Queiroga Teixeira Júnior – investigado por participação no esquema financeiro que movimentava valores suspeitos para a organização criminosa;
Josafá de Figueiredo Silva – ex-assessor parlamentar de vereador, apontado pela polícia como parte da rede de influência do grupo;
Osimar Vieira Nascimento – policial militar preso sob suspeita de envolvimento com as atividades do núcleo político investigado;
Bruno Renato Gatinho Araújo – preso no Amazonas e incluído na lista de investigados pela operação.
Ronilson Xisto Jordão – preso em Itacoatiara por suposta participação no esquema.
SILÊNCIO NA PREFEITURA
A ação policial de hoje aprofunda a crise na gestão de David Almeida, que já responde a pelo menos sete investigações criminais autorizadas pela justiça, envolvendo desde viagens de luxo ao Caribe até contratos suspeitos com familiares. A suspeita de que a prefeitura servia como base para o “núcleo político” do CV coloca o governo municipal sob intervenção moral e jurídica.
Até o fechamento desta reportagem, a Prefeitura de Manaus não havia se manifestado oficialmente sobre as prisões de seus servidores ou sobre a ação policial em suas dependências. O espaço segue aberto para esclarecimentos.







