
O Festival Rec-Beat completa 30 anos em 2024, consolidado como um dos principais palcos da música independente e multicultural do Brasil. Fundado em 1995 por Antonio Gutierrez, o Gutie, o evento se destaca por sua vitalidade e inquietação, promovendo o encontro entre diferentes públicos, estéticas e gerações em meio à efervescência do Carnaval pernambucano.
Realizado no Cais da Alfândega, no Recife, o festival, que aconteceu de 10 a 13 de fevereiro, se tornou um território de experimentação e descoberta musical, unindo tradições e vanguardas. A edição deste ano contou com artistas como Nanda Tsunami, AJULLIACOSTA, Carlos do Complexo e Jadsa, além de nomes como Djonga, Johnny Hooker, Chico Chico, Josyara e Felipe Cordeiro, que celebrou 20 anos de carreira.
A gênese do Rec-Beat: do jornalismo à curadoria musical
Gutie, jornalista de formação, conta que o festival nasceu em um ambiente efervescente no Recife nos anos 90, impulsionado pelo movimento Manguebeat. Inicialmente, o Rec-Beat era uma festa realizada em um casarão histórico. Em 1993, uma experiência em São Paulo, levando 12 bandas pernambucanas para a casa de shows Aeroanta, marcou o que seria a “edição zero” do festival.
A ideia de realizar o festival durante o Carnaval surgiu da percepção de que o público tinha curiosidade sobre a cena musical que se desenvolvia em Pernambuco. Gutie criou um minifestival no Centro Luiz Freire, que com o tempo foi convidado pela prefeitura do Recife a se integrar à programação do Carnaval no sítio histórico.
Diversidade como pilar e o olhar periférico
Ao longo de três décadas, o Rec-Beat ampliou seu alcance, incorporando a cena nacional e, posteriormente, olhando para a América Latina e a África. Gutie ressalta o interesse do festival pelo que acontece nas periferias, não apenas urbanas, mas também geográficas e culturais do Sul Global.
“Eu acho que nós [do festival] temos um olhar bastante periférico, me interessa muito o que acontece nas periferias. Não só a periferia urbana aqui do Recife e de outras capitais do Brasil, mas a periferia mesmo de países, de regiões do mundo, do Sul global, aquilo que não está no centro, mas que a gente sabe que tem uma produção e uma proposta muito inovadora”, explica o fundador.
Novidades e desafios na cena independente
Nesta edição de 30 anos, uma das novidades foi a criação do selo Moritz, focado na programação eletrônica, com DJs nacionais, locais e internacionais. Gutie vê o Moritz como um evento com potencial para se tornar autônomo no futuro.
Apesar da consolidação, a cena de festivais independentes enfrenta desafios. Gutie aponta a dificuldade de captação de recursos, a concentração de investimentos no Sudeste e a falta de visão de marketing das empresas em relação ao potencial cultural do Nordeste. O Rec-Beat, por ser gratuito, depende de articulações com poder público, leis de incentivo e parcerias.
Momentos marcantes e a aposta no novo
Gutie relembra momentos de perrengue, como a crise econômica de 2015, mas destaca o orgulho de o festival nunca ter deixado de acontecer, exceto durante a pandemia. Situações inusitadas com artistas, como o show do Mudhoney, e a resiliência em meio a tempestades também marcam a história do Rec-Beat.
Para o fundador, a maior recompensa é o feedback do público jovem, que se surpreende com as descobertas musicais. “O que eu mais curto no Rec-Beat é exatamente isso: a pessoa vai para ver o nome que ela conhece e acaba se deparando com outras opções que causam surpresa, que são coisas transformadoras”, afirma Gutie.
Ele conclui reforçando a missão do festival de apresentar novas opções, mostrando que “existe vida além da mídia massiva, além dos algoritmos”. A mensagem final é um convite à coragem e à experimentação: “O novo sempre vem!”.
Com informações da Agência Brasil







