O Carnaval, longe de ser uma celebração única, se desdobra em uma multiplicidade de formas e significados que refletem a riqueza cultural do Brasil. Segundo Ana Beatriz Dias, psicóloga, teóloga e professora da Escola Politécnica da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), a festa oferece diversos caminhos para o fortalecimento de vínculos sociais e a expressão da identidade individual e coletiva.

A diversidade das celebrações carnavalescas

“Não existe só um carnaval. O nome deveria ser carnavais”, afirma Dias. Ela ressalta que a beleza da cultura brasileira reside justamente nessa diversidade. Seja no Sambódromo, em shows de rock, nos bonecos de Olinda, nas manifestações do Pará ou na carreada do Rio Grande do Sul, cada região e grupo encontra sua maneira particular de vivenciar o feriado.

O rito ancestral do desfilar

A prática de desfilar, segundo a teóloga, remonta à antiguidade, onde carregava um significado de vitória e celebração popular. Essa tradição se manifesta em procissões católicas, com estandartes, imagens e música, e serviu de base para a formação de blocos, maracatus e outros grupos carnavalescos.

“É o mesmo estilo: os instrumentistas, as pessoas com os andores ou alegorias e cada agremiação vai defender o estandarte da paróquia tal ou do bairro tal, do time tal, da confraria, do santo”, explica Dias. Gradualmente, o sagrado deu lugar ao profano e o corpo, na dança, passou a ocupar um espaço simbólico de expressão e liberdade.

Carnaval e a busca por espiritualidade

Para além da festa, o Carnaval pode ser interpretado como um momento de reflexão sobre o ano que se inicia e a própria espiritualidade. Para os católicos, o período marca a despedida da carne antes da Quaresma, um tempo de purificação, jejum e conversão, que culmina na vivência do sofrimento de Jesus.

“O carnaval seria um período de extravasar e extrapolar tudo que for, para que, no dia seguinte, se inicie a questão de vivenciar o sofrimento de Jesus ao longo da chegada dele até o Calvário. Esse é o sentido da Quaresma”, pontua a especialista.

Celebração da vida e fortalecimento social

A possibilidade de se reunir em grupo para seguir tradições ou renunciar a algo, como o consumo de carne, intensifica as emoções e fortalece os laços sociais. Essa dinâmica pode renovar o sentimento de pertencimento e reduzir o isolamento.

A linguagem do Carnaval, para Dias, é uma forma de demonstrar a relação do indivíduo com seu corpo e com a sociedade. A festa permite fugir de normas rígidas, canalizar tensões e reorganizar simbolicamente a realidade, funcionando como um ritual de descarga de alegria.

“É um jogo identitário, uma expressão cultural. E a cultura vai falar muito da saúde dessa sociedade, seja a saúde do corpo, a saúde mental, tudo que envolve o desejo humano, as fantasias. A cultura popular, seja qual for a festa, vai ter muitas formas de leitura”, conclui.

Com informações da Agência Brasil