Algumas horas depois de enfrentar o drama da falta de oxigênio em hospitais de Manaus, que levou pessoas a morrerem por asfixia, um médico intensivista fez um desabafo: “O nosso governo tem sido negacionista em relação à pandemia, relativiza tudo, banaliza tudo. A última foi dizer que o que está acontecendo aqui em Manaus é porque a gente não faz tratamento precoce.”

De seu carro, Anfremon D’Amazonas, intensivista do Hospital Universitário Getúlio Vargas, um dos mais afetados pela falta de oxigênio na quinta, gravou um vídeo e compartilhou em suas redes sociais relatando a tragédia pela qual passou a cidade. Ele disse que a segunda onda está “devastadora” e que o “vírus está mais agressivo” do que antes. E se queixou do governo, que ele disse ter ajudado a eleger.

O médico se referiu a comentários feitos no último dia 12 e nesta quinta-feira pelo presidente Bolsonaro. Na terça, um dia depois de o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, ter ido a Manaus, Bolsonaro disse que a situação na cidade estava um “caos” porque “não faziam o tratamento precoce” e que Pazuello já teria “interferido” para resolver a situação.

Nesta quinta, em live horas depois do colapso na capital do Amazonas, o presidente voltou a insistir nessa tecla, defendendo tratamentos com cloroquina. Nenhuma das drogas sugeridas pelo governo como de “tratamento precoce” foram consideradas eficazes pela ciência para combater a doença. Até hoje as pesquisas não encontraram remédios que realmente possam tratar a covid-19, somente alguns de seus sintomas, já para pacientes internados.

Mesmo assim, diversos médicos usam esse kit, prática que começou a ser mais comum neste ano em Porto Alegre e Manaus, sem que isso tenha qualquer impacto positivo sobre a piora de casos.

“Eu passo visita, nas duas UTIs onde trabalho… pelo menos 50 doentes eu vejo por dia nas últimas semanas. Todos eles fizeram tratamento precoce. Todos fizeram azitromicina, fizeram ivermectina, alguns fizeram anita, alguns ainda fizeram hidroxicloroquina. Tudo aquilo que é preconizado como tratamento precoce eles fizeram. Alguns doentes começaram a tomar corticoide em casa, sem ter sintomas respiratórios, que nem é legal fazer”, relatou D’Amazonas.

“Os doentes não são burros. Eles leem, são antenados, compram, fazem estoque em casa sozinhos. Não é falta de tratamento precoce. É sacanagem com a gente dizer que o que está acontecendo aqui é falta de tratamento precoce”, queixou-se. “Eu votei no governo atual, meu voto está declarado, então acho que tenho o direito de criticar a pessoa que eu coloquei lá em cima.”

O médico afirmou que a situação de Manaus agora é pior do que na primeira onda, que atingiu fortemente a cidade em abril e maio do ano passado. “A gente está vendo a doença mais agressiva, levando mais doentes para diálise, pegando gente mais nova. Está sendo devastador, os hospitais estão todos lotados. Se (alguém) sofrer um infarto, acidente de carro, precisar operar a vesícula, está ferrado mano, não tem para onde ir. E se conseguir um lugar, tem risco muito alto de pegar covid-19, porque todos os hospitais estão cheios de covid.”

Ele ainda fez um alerta para o resto do País. “O que está acontecendo aqui, não desejo para ninguém, mas eu acho que o governo, em vez de ficar fazendo manobras evasivas e dizer que está tudo tranquilo, que está tudo bem, tem de preparar o País para a segunda onda. Se preparem, porque ela é devastadora, é cruel, vai levar muitas vidas. Perdi muitos amigos, estou perdendo colegas de trabalho. Tudo isso é lastimável.”

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